Maio Laranja na Baixada: municípios mobilizam escolas, igrejas e forças de segurança contra o abuso sexual infantil — e os dados mostram por que essa luta nunca foi tão urgente

Brasil registrou alta de 49% nas violações sexuais contra menores em 2026. Belford Roxo, São João de Meriti, Nova Iguaçu e outras cidades da região realizaram ações nas últimas semanas. Saiba como denunciar e onde buscar ajuda

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O mês de maio ficou laranja na Baixada Fluminense. Em todo o país, o mês é dedicado ao combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes — e em 2026, a campanha ganhou um contorno de urgência que vai além do simbolismo.

Dados do Disque 100, linha federal de denúncias de violações de direitos humanos, revelam que o Brasil registrou mais de 32,7 mil violações sexuais contra menores apenas entre janeiro e abril deste ano — uma alta de 49,48% em comparação ao mesmo período de 2025. Na Baixada Fluminense, região com alta vulnerabilidade social e grande concentração de crianças e adolescentes em situação de risco, a mobilização foi intensa.

O que os municípios fizeram

Belford Roxo foi um dos mais ativos. A Secretaria Municipal de Assistência Social e Cidadania (Semasc), em parceria com a Secretaria de Educação, levou a Van Itinerante Maio Laranja a 12 escolas municipais ao longo do mês. A abertura da programação aconteceu na Escola Municipal Casemiro Meirelles, no Jardim do Ipê, com a presença da prefeita Mariana Canella. O encerramento ocorreu em 21 de maio com um seminário realizado na Igreja Batista de Heliópolis, que reuniu profissionais de Assistência Social, Saúde e Educação. “A campanha reforça que a proteção das nossas crianças é responsabilidade de todos nós — família, escola, poder público e sociedade”, disse o secretário de Assistência Social, Diogo Bastos.

São João de Meriti realizou, na quarta-feira (26), uma ação no CIEP 132 Municipalizado São João Bosco, no bairro Éden. O encontro reuniu alunos do 8º e 9º ano, representantes de turma, Conselho Tutelar, Proerd, Patrulha da Criança e Adolescente do 21º BPM, e o Núcleo de Atendimento à Criança e ao Adolescente (NACA). A coordenadora da SubCad, Patrícia Oliveira, apresentou a política “Voz da Infância”, voltada a qualificar os profissionais para a escuta especializada de vítimas. “A proposta é fortalecer os profissionais e garantir um atendimento mais humanizado”, explicou.

Nova Iguaçu aprovou, em sessão da Câmara Municipal, um projeto que institui a campanha Maio Laranja como política permanente no município — ou seja, as ações de conscientização não ficarão restritas ao mês de maio. “Nosso objetivo é que a campanha aconteça não só em maio, mas no ano inteiro”, disse o vereador autor da proposta. O NACA de Nova Iguaçu realizou também palestras com conselheiros tutelares sobre o perfil psicológico de abusadores sexuais, e uma roda de conversa sobre violência doméstica e familiar nas escolas da rede municipal.

Arte como escudo: projeto cultural transforma territórios da Baixada

Uma das iniciativas mais inovadoras da campanha este ano partiu da ONG Se Essa Rua Fosse Minha, em parceria com a Transpetro. O projeto Cultura na Faixa, desenvolvido em territórios vulneráveis da Baixada, usa oficinas gratuitas de música, circo, Folia de Reis e futebol para criar ambientes seguros de convivência e proteção para crianças e adolescentes. A ideia central é que um jovem com vínculo comunitário forte, com adultos de referência e com atividades que ocupam seu tempo, está mais protegido do que um jovem isolado.

Especialistas em proteção infantil reforçam esse ponto: a prevenção ao abuso não nasce apenas da punição ao agressor, mas do fortalecimento das redes afetivas ao redor da criança — família, escola, comunidade religiosa e vizinhança.

Os números que a Baixada precisa conhecer

O abuso sexual infantil é subnotificado — especialistas estimam que a maioria dos casos nunca chega ao conhecimento das autoridades. Na Baixada Fluminense, a combinação de vulnerabilidade socioeconômica, alta densidade populacional e presença do crime organizado cria um ambiente de risco elevado para crianças e adolescentes.

Segundo dados do Mapa da Desigualdade da Casa Fluminense, Belford Roxo tem 86% das pessoas mortas pelo Estado pertencentes à população negra, o mesmo grupo que concentra a maior parte das vítimas de violência doméstica e sexual na região. A desigualdade racial e de gênero não é um pano de fundo — é o centro do problema.

Como denunciar abuso sexual contra crianças e adolescentes

  • Disque 100: Ligue gratuitamente de qualquer telefone, 24 horas por dia, 7 dias por semana. As denúncias podem ser feitas anonimamente.
  • Conselho Tutelar: Cada município tem ao menos uma sede. Em situações de risco imediato, o Conselho Tutelar pode acionar a Polícia e o Ministério Público.
  • Delegacia da Mulher (DEAM): Atende também casos envolvendo adolescentes vítimas de violência sexual.
  • NACA (Núcleo de Atendimento à Criança e ao Adolescente): Presente em Nova Iguaçu e São João de Meriti, oferece atendimento psicológico especializado às vítimas.
  • Boletim de Ocorrência: Pode ser feito online pelo site da Polícia Civil do RJ (delegaciaonline.rj.gov.br) ou presencialmente em qualquer delegacia.

Se a criança ou adolescente estiver em perigo imediato, ligue 190 (Polícia Militar)

 

 

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