A Avenida Automóvel Clube e a estrada esquecida que ajudou a construir a Baixada Fluminense

Quem passa hoje pela Avenida Automóvel Clube talvez nem imagine que está percorrendo um dos caminhos mais importantes da história da Baixada Fluminense — e também do Brasil.

Por

Um tempo onde as estradas eram para aventureiros. Estrada da ACB, Igreja do Pilar em 1924, antes de ser inaugurada. Foto: Duque de Caxias que Passou.

Muito antes da Rodovia Washington Luiz existir e até muito antes do trânsito pesado entre Rio e Petrópolis, já havia uma estrada cruzando a Baixada Fluminense e ligando a capital à serra: a antiga Estrada Rio-Petrópolis do Automóvel Clube, inaugurada em 1926 – ao contrário do que muitos imaginam, a Avenida Washington Luiz não foi a primeira estrada moderna para automóveis entre Rio e Petrópolis.

Essa confusão acontece até hoje. Muitos sites e reportagens acabam misturando duas histórias diferentes: a da estrada construída pelo Automóvel Clube do Brasil, que passava pela Pavuna, São João de Meriti, Belford Roxo e Duque de Caxias, e a rodovia inaugurada dois anos depois, em 1928, pelo presidente Washington Luiz, com outro traçado.

Antes dos carros, vieram os tropeiros

Muito antes de se tornar a Avenida Automóvel Clube que é conhecida hoje, esse trajeto já era estratégico. Durante séculos, ele foi usado por indígenas, colonizadores, tropeiros, comerciantes e viajantes que precisavam cruzar a Baixada Fluminense rumo ao interior do país.

Por esses caminhos passaram mercadorias, ouro, café, móveis, imagens sacras, azulejos e até sonhos de gente que buscava uma vida nova. Parte importante da colonização do Brasil passou pelo eixo Pavuna x Duque de Caxias, passando por São João de Meriti e Belford Roxo – cidades que ainda não eram “cidades” como conhecemos hoje.

Um dos pontos centrais dessa movimentação era justamente a região da Pavuna e de Meriti.

No século XVII, essa área funcionava como um verdadeiro entreposto comercial. Em 1660, foi construída ali a chamada Vila da Pavuna, toda em pedra e cal. O lugar concentrava portos fluviais que escoavam a produção agrícola da região e recebiam produtos importados que abasteciam fazendas e igrejas da Baixada Fluminense. Ali havia de tudo: armazéns, trapiches, vendas e hospedarias.

Não seria estranho concluir que aquela região onde fica a estação de metrô da Pavuna e o Sesc São João de Meriti era praticamente a “porta de entrada” da Baixada Fluminense.

Um tempo onde as estradas eram para aventureiros. Avenida Automóvel Clube, Igreja do Pilar em 1924, antes de ser inaugurada. Foto: Duque de Caxias que Passou.

Um tempo onde as estradas eram para aventureiros. Avenida Automóvel Clube, Igreja do Pilar em 1924, antes de ser inaugurada. Foto: Duque de Caxias que Passou.

O caminho que levava até o Imperador

Tudo começava em São Cristóvão, onde ficava o Paço Imperial – atual Quinta da Boa Vista. E o momento era histórico: foi dali que dom Pedro I partiu, em 1822, na viagem que terminaria com a declaração da Independência do Brasil.

Para seguir rumo ao interior, as tropas passavam pela Pavuna, que era o principal ponto de travessia porque o rio ali tinha menor profundidade. Da Pavuna, o caminho se espalhava pela Baixada Fluminense em diferentes direções.

Uma dessas rotas seguia justamente pelo traçado que mais tarde daria origem à Avenida Automóvel Clube: ela passava por áreas que hoje conhecemos como Belford Roxo, Jardim Redentor, Parque Fluminense, São Bento, Pilar, Santa Cruz da Serra e Raiz da Serra, até finalmente subir a Serra da Estrela e alcançar Petrópolis.

Ou seja: muita gente circula hoje por esse percurso sem saber que está literalmente andando sobre uma antiga estrada imperial.

Quando o automóvel chegou à Baixada Fluminense

No começo do século XX, o automóvel ainda era novidade no Brasil, mas já existia uma ideia ambiciosa: criar uma estrada que permitisse sair do Rio e chegar a Petrópolis de carro.

A proposta surgiu em 1906, impulsionada pelo então chanceler Barão do Rio Branco. O objetivo era impressionar o rei de Portugal, dom Carlos, que havia sido convidado para visitar o Brasil e faria um passeio até Petrópolis, mas o rei foi assassinado antes da viagem acontecer, e o projeto acabou engavetado.

Anos depois, membros do Automóvel Clube do Brasil passaram a estudar e melhorar o antigo caminho dos tropeiros que cortava a Baixada Fluminense. Em 1922, um grupo conseguiu realizar a primeira viagem oficial de automóvel entre Rio e Petrópolis usando esse trajeto e assim começou uma transformação dramática na mobilidade do Rio de Janeiro.

A primeira rodovia Rio-Petrópolis foi inaugurada em 1926

No dia 13 de maio de 1926, a estrada foi oficialmente inaugurada com grande cerimônia: nascia a Estrada Rio-Petrópolis do Automóvel Clube. A obra foi resultado de uma parceria entre os governos federal, estadual e o próprio Automóvel Clube, com apoio financeiro de doações.

Na época, revistas ilustradas já destacavam que aquela estrada não era apenas um avanço para turistas, mas também representava desenvolvimento econômico para toda a região atravessada por ela.

Por que isso importa hoje?

Atualmente a Avenida Automóvel Clube concentra um comércio cada vez mais ativo, que mesmo diante de diversos períodos da história, se manteve crescente. São dezenas de lojas de automóveis no trecho entre São João de Meriti e Belford Roxo, regiões comerciais como o Centro de São João e Vilar dos Teles e empresas de alcance estadual como os Postos Forza, que instalaram uma unidade na altura do viaduto que cruza a Avenida Presidente Dutra no Jardim Meriti.

Quem cruza hoje o caminho da Av. Dom Helder Câmara, Av. Pastor Luther King Jr. e a Automóvel Clube propriamente dita, talvez não faça ideia do peso histórico que esse trajeto tem para a história do Brasil.

Resgatar a história da Baixada Fluminense é um passo fundamental para enxergar o valor da região e atrair recursos para o território.

A Avenida Automóvel Clube não é apenas uma via movimentada – é um pedaço vivo da formação da Baixada Fluminense.

Ela guarda marcas da expulsão dos povos indígenas, do ciclo do ouro, do avanço do café, da circulação de mercadorias, da chegada dos primeiros automóveis e da transformação do nosso território em corredor estratégico entre a capital e o interior.

A Baixada Fluminense sempre esteve no caminho da história do Brasil — e hoje merece ser o destino dos olhares do país.


Bibliografia

PEREIRA, Ely. Os caminhos da Avenida Automóvel Clube. Rio das Ostras in Focus, 2016. Disponível em:08/11/2016. Acesso em 13/05/2026.

No seu email

Os principais assuntos da Baixada Fluminense gratuitamente no seu email. Sem spam.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *