TRE-RJ pede Força Federal para eleições e cita a Baixada Fluminense: ‘o voto não é livre onde criminosos controlam as ruas’
Tribunal aprovou por unanimidade o envio de tropas federais para outubro e criou gabinete com dez instituições de segurança. Um quarto dos fluminenses vive em áreas dominadas pelo crime. Medida ainda depende de aprovação do TSE
Faltam menos de três meses para as eleições gerais de outubro — e o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro já enviou um sinal claro ao país: a Baixada Fluminense e outras regiões metropolitanas do estado não têm condições de garantir um voto verdadeiramente livre sem a presença das Forças Armadas nas ruas.
O TRE-RJ aprovou por unanimidade, em sessão plenária realizada no dia 9 de julho, o pedido formal de reforço das forças federais para a segurança do pleito de outubro. A solicitação foi encaminhada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em Brasília, que decidirá sobre o envio das tropas, cuja execução caberá ao Ministério da Defesa.
“Quando o cidadão caminha até a urna sob a vigilância de criminosos que dominam a comunidade, a sua liberdade não é plena. O que confere singular gravidade à presente requisição é a peculiaríssima realidade da segurança pública fluminense. Não se trata de risco difuso ou pontual de tumulto, mas de fenômeno estrutural.”
A frase é do desembargador Cláudio de Mello Tavares, presidente do TRE-RJ, durante a sessão. E ela define com precisão o problema que o tribunal precisa enfrentar: não é uma questão de tumulto no dia da eleição, mas de uma realidade que antecede e condiciona o próprio ato de votar.
O dado que assusta: 25% dos fluminenses vivem sob domínio criminoso
O presidente da Corte Eleitoral fluminense apresentou um dado que dimensiona a gravidade da situação: um quarto da população do estado do Rio de Janeiro — aproximadamente quatro milhões de pessoas — vive em territórios onde o controle efetivo das ruas pertence a facções criminosas ou milícias armadas, e não ao Estado.
Na Baixada Fluminense, essa realidade é vivida diariamente em comunidades de Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Belford Roxo, São João de Meriti, Queimados e outros municípios, onde traficantes e milicianos determinam quem entra, quem sai e, em períodos eleitorais, frequentemente também quem vota — e em quem.
O desembargador Tavares foi direto sobre as consequências práticas disso para o processo democrático: “O voto livre pressupõe o território livre. Onde o eleitor caminha até a urna sob a vigilância de grupos armados que dominam o acesso à sua comunidade, a liberdade do sufrágio deixa de ser plena.” Para o magistrado, garantir eleições livres no Rio exige mais do que urnas funcionando — exige que o eleitor consiga chegar até elas sem coerção.
As medidas tomadas pelo TRE-RJ
Além do pedido de Força Federal, o TRE-RJ estruturou uma resposta institucional mais ampla para blindar o pleito de outubro. Na terça-feira (7 de julho), o tribunal inaugurou o Gabinete Extraordinário de Segurança Institucional (Gaesi), colegiado criado exclusivamente para coordenar ações de segurança durante as eleições.
▶ O Gaesi reúne representantes de dez instituições:
Procuradoria Regional Eleitoral · Ministério Público do RJ
Comando Militar do Leste · Secretaria de Estado de Segurança Pública
Secretaria de Estado de Polícia Militar · Polícia Federal (Superintendência RJ)
Polícia Civil do RJ · Administração Penitenciária do Estado
Polícia Rodoviária Federal · Guarda Municipal do Rio de Janeiro
As ações do Gaesi se concentram em duas frentes: a substituição preventiva de locais de votação situados em áreas de alto risco — para garantir que mesários e eleitores não precisem cruzar territórios dominados por facções para votar — e o compartilhamento de dados de inteligência entre os órgãos para identificar e impedir o registro de candidaturas com vínculos ao crime organizado.
“Estamos articulados proporcionando condições para que a escolha seja livre e consciente”, afirmou o desembargador Tavares ao instalar o gabinete.
A reviravolta do governo do estado
A decisão unânime do TRE-RJ não foi sem tensão. Em 12 de junho, o governador em exercício Ricardo Couto havia comunicado ao tribunal que o envio de forças federais era desnecessário, apoiado em manifestações da Secretaria de Polícia Militar e da Casa Civil, que afirmavam ter capacidade própria para garantir o pleito.
Duas semanas depois, após reunião direta com o presidente da Corte Eleitoral, Couto reverteu o posicionamento. Na nova comunicação ao tribunal, o governador em exercício reconheceu que, embora os órgãos estaduais tenham capacidade operacional, o apoio federal se torna uma medida relevante para reforçar as ações de segurança — especialmente nas áreas de maior risco territorial.
A reviravolta foi lida por analistas eleitorais como reconhecimento implícito de que o Rio de Janeiro enfrenta um problema que extrapola a capacidade das forças estaduais — ao menos no que diz respeito à garantia de um ambiente de voto efetivamente livre para os moradores de territórios dominados pelo crime.
Histórico: o Rio pede ajuda federal em quase toda eleição
O uso de forças federais em eleições fluminenses não é novidade. O Rio de Janeiro recorre ao mecanismo com regularidade desde 2012. Nas eleições gerais de 2022, o TSE autorizou o envio de forças federais para 561 localidades em 11 estados no primeiro turno — e o Rio foi um dos principais contemplados. Nas eleições municipais de 2024, 32 cidades do estado contaram com reforço das Forças Armadas durante o período de votação.
O desembargador Tavares invocou esse histórico para justificar o pedido: “O resultado positivo dos pleitos anteriores, com amparo das forças federais, corrobora que a requisição não é excesso, mas cautela amadurecida pela experiência.”
O que isso significa para o eleitor da Baixada
Para o morador da Baixada Fluminense, a decisão do TRE-RJ traz implicações práticas e simbólicas. Do ponto de vista prático, significa que os locais de votação em áreas identificadas como de alto risco poderão ser alterados antes de outubro — o que pode afetar onde moradores de diversas comunidades precisarão ir para votar. O eleitor deve ficar atento ao aplicativo e-Título, onde o local de votação individual fica disponível, e verificar eventuais mudanças de endereço nas próximas semanas.
Do ponto de vista simbólico, a decisão unânime da Corte Eleitoral é um reconhecimento oficial de que o controle territorial exercido por facções e milícias na Baixada e em outras regiões do estado representa um obstáculo real ao exercício pleno da democracia — e que esse problema não se resolve apenas com urnas funcionando, mas com a garantia de que nenhum eleitor precise atravessar uma boca de fumo ou pedir licença a um miliciano para ir votar.
A decisão final sobre o envio da Força Federal está nas mãos do TSE. A expectativa é que o tribunal superior se manifeste nas próximas semanas, com tempo suficiente para o planejamento operacional antes do primeiro turno, em outubro.




