O cinema de Catu Rizo sobre rios esquecidos e invisibilisados da Baixada Fluminense
“Memória das Águas”, título do projeto cinematográfico em formato de trilogia idealizado por Catu Rizo, percorre e resgata os rios da Baixada Fluminense situados no esquecimento. O projeto investiga as relações entre memória, território e natureza em um cinema fluido, onde as águas não são cenário, mas presença viva e protagonista. Natural de Nilópolis, Rizo conta sobre a relação da água a escolha pelo tema.
“Eu cresci em uma cidade de rios, mas não pensava sobre isso, até uns dez anos atrás quando eu começo a pesquisar os rios da Baixada Fluminense. Nilópolis é atravessada por dois rios: o Sarapuí e o Pavuna, rios poluídos, que foram retificados e canalizados, mas que ainda estão vivos. Hoje em dia, eu penso que foram os rios que foram atravessados pelo processo de ocupação da cidade. Ou seja, eles já estavam aqui existindo neste território, são habitantes antigos, sagrados.”
O filme apresenta uma linguagem poética com abordagem política focando mais na sensibilidade de uma região pouco registrada e constantemente apagada ao invés de apenas de basear em números e dados. A atriz Simone Cerqueira vive Dalva, a protagonista que caminha entre o real e o imaginado, evocando temas urgentes como o racismo ambiental, a urbanização predatória, a crise hídrica e o direito à memória.
A trilogia “Memória das Águas” teve início com “A Terra das Muitas Águas” (2020), que partiu do rio Meriti-Pavuna para refletir sobre ancestralidade, sonho e pertencimento. A segunda obra é “Memória das Águas”. Rodado em cinco locações da região, o filme é uma ficção poética, que costura memórias coletivas, arquivos da TV Maxambomba e a natureza ainda presente no Parque Natural de Nova Iguaçu e no Parque do Gericinó. Já o terceiro da trilogia é um longa documental Guapi-Macacu, que também terá sua estreia em breve. Nele, Catu volta-se para os rios navegáveis do leste da Baía de Guanabara — como o Macacu, Guapiaçu e Guapimirim — ampliando a cartografia afetiva das águas fluminenses.
Uma das dificuldades encontradas pela produção foi sobre registros de nascentes dos rios. A pesquisa envolveu conversas com a pesquisadora Viviane Nogueira, do Observatório do Meio Ambiente da Baixada Fluminense (IFRJ), e com a arquiteta e urbanista Julia Bahiana (FAU/UFRJ), autora de um trabalho dedicado ao Rio Sarapuí. A nascente foi identificada através de mapeamento no entorno do Parque Estadual da Pedra Branca em local de difícil acesso. Dessa forma, a cena foi recriada através de fabulação.
Catu Rizo é um nome forte na cena audiovisual da Baixada Fluminense. Foi professora de Cinema e Audiovisual na Universidade Estadual do Paraná, trabalhou em mais de 20 filmes, entre curtas e longas, no currículo. A cineasta resgata, por exemplo, a memória da TV Maxambomba, “a maior experiência de TV comunitária da América Latina, que foi criada no final dos anos 1980 por pessoas como o educador Paulo Freire e o cineasta Eduardo Coutinho”. A TV Maxambomba existiu por 16 anos e é um dos maiores expoentes do cinema da região. Atualmente há o Baixada Filma, o EncontrArte Audiovisual e o Ebav, por exemplo, ocupando e estimulando o audiovisual no território.
“Nos últimos anos, trabalhamos pelo reconhecimento da região como um polo de produção audiovisual fluminense. Sabemos que há um imaginário hegemônico que nos diz que, para fazer cinema, é preciso estar fora da Baixada. No entanto, este momento nos diz o contrário. Este ano, tivemos a inauguração do curso de licenciatura em Cinema e Audiovisual na UERJ de Duque de Caxias, a FEBF, um marco histórico que trará boas consequências ao longo dos próximos anos.”
As referências de Catu Rixo no cinema tem nomes que vão de Agnès Varda, Apichatpong, Maya Deren e Mambéty a Glauber Rocha, Zózimo Bulbul, Patrício Guzman, Eduardo Coutinho, Sara Gomez, Dziga Vertov. No cinema contemporâneo brasileiro a cineasta admira André Novais, Adirley Queiroz, Glenda Nicácio, Ary Rosa.
“Sabe aquele livro do filósofo Ailton Krenak “A vida não é útil”? Neste livro, Krenak escreve “a recriação do mundo é um evento possível o tempo inteiro”. Assim, entendo o cinema e as outras expressões artísticas como uma experiência sensível que possibilitam a criação de mundos possíveis e nos lembram disso, sabe?”
Com 23 minutos de duração, Memória das Águas foi realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo, por meio de edital municipal da prefeitura de Nilópolis e contou com uma equipe majoritariamente da Baixada Fluminense. O curta também conta com medidas de acessibilidade como LIBRAS, audiodescrição e legenda descritiva. O roteiro está disponível online em sua versão escrita, e será lançado também em áudio.
Memória das Águas é, antes de tudo, uma proposta de escuta. Um gesto de cinema que faz das margens ao centro — e da ausência, um rio em curso.
Catu Rizo conta que a produção de Memória das Águas foi uma verdadeira jornada com busca por artigos, conversa com professores, pesquisadores, uso de geolocalização de nascente. Mas o importante é que “o resto da história você descobre ao assistir o filme e terá que distinguir o que é verdade e o que uma invenção da narrativa”.
SERVIÇO
Curta-metragem Memória das Águas
Parte da: Trilogia das Águas (co A Terra das Muitas Águas e Guapi-Macacu)
Duração: 23 minutos
Direção e Roteiro: Catu Rizo
Locais de filmagem: Nilópolis, Nova Iguaçu e Belford Roxo (RJ)
Estreia prevista: março de 2025 (IFRJ e escola pública de Nilópolis)
Financiamento: Lei Paulo Gustavo – Edital Municipal de Nilópolis
Mais informações @CatuFilmes
Acessibilidade: LIBRAS, audiodescrição e legenda descritiva
Apoios: BaixadaCine, CECIP, TV Maxambomba, Secretarias de Cultura e Meio Ambiente




