Livro criado por educador de Mesquita ensina crianças a reconhecer situações de violência sexual
Obra do professor Leonardo Henrique, o Tio Léo, usa linguagem acessível para orientar crianças sobre proteção, respeito ao próprio corpo e busca por ajuda.
Um livro infantil criado na Baixada Fluminense está transformando a educação em uma ferramenta de prevenção à violência sexual contra crianças. Escrito pelo professor Leonardo Henrique, conhecido como Tio Léo, a obra “A Coragem de Dizer Não” foi desenvolvida para ensinar, de forma lúdica e acessível, como crianças podem reconhecer situações de violência, compreender que seus corpos merecem respeito e identificar adultos de confiança para pedir ajuda.
Nascido e criado na Chatuba, em Mesquita, o educador decidiu enfrentar uma realidade preocupante por meio da literatura infantil. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 76,8% das vítimas de violência sexual registradas no país são crianças e adolescentes, cenário que reforça a importância de ações preventivas desde os primeiros anos da infância.
Mais do que uma história, o livro foi concebido como um instrumento pedagógico para escolas, famílias e comunidades. A narrativa aborda temas como os limites do próprio corpo, a diferença entre demonstrações de afeto e situações de violência, a importância de dizer “não”, buscar ajuda e compreender que nenhuma criança é culpada quando sofre qualquer tipo de violação.
Projeto nasceu na Baixada Fluminense
Publicar o livro também representou um desafio para o autor. Sem recursos para custear a publicação, Leonardo recorreu ao financiamento coletivo e realizou diversas ações para viabilizar o projeto.
“Para um jovem negro, morador de comunidade, publicar um livro ainda é um caminho cheio de dificuldades. Para isso se realizar, foi preciso um financiamento coletivo, por meio de sorteios, vendas de doces na universidade, etc. Mesmo com tantas dificuldades, eu continuei porque acreditava que essa mensagem precisava chegar às crianças”, relata.
O educador é estudante da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e desenvolve pesquisas voltadas à proteção da infância, investigando como fatores como racismo, desigualdades sociais, deficiência e dificuldades de acesso às políticas públicas podem aumentar a vulnerabilidade de crianças à violência.
Representatividade também faz parte da proteção
A escolha dos personagens foi pensada para ampliar a identificação das crianças com a história. O livro apresenta protagonistas negros e inclui uma personagem surda, buscando representar grupos historicamente mais vulnerabilizados.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que mais de 45,5% das vítimas de violência sexual contra crianças e adolescentes são negras. Para Leonardo, discutir prevenção também passa pelo reconhecimento das diferentes realidades vividas pelas infâncias brasileiras.
“O livro fala sobre coragem porque, muitas vezes, a violência continua justamente pelo silêncio. A criança precisa saber que seu corpo tem valor, que ela pode dizer ‘não’ e que sempre deve procurar um adulto de confiança”, explica.
Projeto também chega às escolas
A iniciativa ultrapassou as páginas do livro e deu origem a um trabalho de formação voltado à proteção da infância. Atualmente, Leonardo realiza oficinas, contações de histórias e encontros de capacitação para professores, levando o debate sobre prevenção da violência sexual infantil para escolas e outros espaços educativos.
A proposta é fortalecer a rede de proteção por meio da informação, contribuindo para que crianças reconheçam situações de risco e saibam onde buscar apoio.
Dicas Finais
Conversar sobre proteção do corpo de maneira adequada à idade da criança é uma das estratégias recomendadas por especialistas para prevenir situações de violência. O diálogo entre escola, família e comunidade pode ajudar crianças a compreenderem seus direitos, reconhecerem comportamentos inadequados e identificarem adultos de confiança para pedir ajuda quando necessário.




