Belford Roxo em números: o que os dados revelam sobre a vida na cidade
Com quase 500 mil habitantes, o município enfrenta desafios profundos em saneamento, saúde, moradia e desigualdade racial — mas também registra avanços que merecem atenção.
Belford Roxo tem quase meio milhão de pessoas. É uma cidade grande, viva, cheia de história. Mas os números que descrevem a vida de quem mora lá revelam um cenário de desigualdade profunda — que afeta principalmente quem é negro, quem é mulher e quem depende de serviços públicos para sobreviver.
Os dados são do Mapa da Desigualdade, organizado pela Casa Fluminense, que produz os Perfis Municipais dos 22 municípios da Região Metropolitana do Rio. O perfil de Belford Roxo para 2024 mostra um retrato duro — e necessário de ser conhecido.
Esgoto, saúde e moradia: o básico ainda falta
Um dos dados mais impactantes do perfil é sobre saneamento: apenas 0,3% dos domicílios de Belford Roxo têm coleta e tratamento de esgoto. Para comparar, a média da Região Metropolitana do Rio (RMRJ) é de 26,3%. Isso significa que a grande maioria do esgoto da cidade vai parar em rios, canais e valas — e volta para a população na forma de doença.
Não por acaso, 98,6% das pessoas internadas por doenças de veiculação hídrica (transmitidas pela água contaminada) em Belford Roxo são negras — o pior índice entre todos os municípios analisados.
“Falta esgoto, falta saúde, falta moradia. E quem mais sofre é sempre a mesma população.”
A cobertura da Atenção Básica — os postos de saúde e agentes comunitários que deveriam garantir saúde para todos — é de apenas 24,9%. A média do país é 77%. Ou seja: três em cada quatro moradores de Belford Roxo não têm acesso regular ao sistema básico de saúde.
O pré-natal insuficiente também preocupa: 55% das gestantes do município não realizaram o número mínimo recomendado de consultas de pré-natal — mais que o dobro da média da RMRJ (25,3%). Isso coloca em risco tanto as mães quanto os bebês.
Desigualdade racial: dados que não podem ser ignorados
Belford Roxo é uma cidade majoritariamente negra: 72,7% da população se declara preta ou parda. Mas essa maioria não se traduz em igualdade — pelo contrário.
86% das pessoas mortas pelo Estado em Belford Roxo são negras. A cidade registrou 138 tiroteios no período analisado. E a diferença de expectativa de vida é gritante: a raça e a idade média ao morrer mostram que pessoas negras morrem, em média, 8 anos mais jovens do que as brancas no município.
A diferença salarial entre brancos e negros em Belford Roxo é de R$ 403 — menor do que a média da RMRJ (R$ 1.662). Isso não significa que não há desigualdade: significa que os salários são baixos para quase todos, independente de raça.
Ser mulher em Belford Roxo
As mulheres são maioria em Belford Roxo: 52,1% da população. E enfrentam desafios específicos que os dados revelam com clareza.
75,2% das mulheres negras vivem em situação de pobreza ou extrema pobreza. A diferença salarial entre homens e mulheres é de R$ 439 — acima da média nacional de R$ 394. E apenas 13,3% das crianças têm acesso a vagas em creche, o que limita diretamente a possibilidade das mães de trabalhar.
Apesar disso, o índice de violência de gênero registrado (11,2) fica abaixo da média estadual (12,3) — um dado que pode refletir tanto subnotificação quanto esforços locais de enfrentamento.
Clima e meio ambiente: a cidade mais vulnerável
Belford Roxo tem 100% dos seus rios, baías e lagoas com qualidade ruim — o pior índice entre todos os municípios da RMRJ. A área verde por habitante é de apenas 5,4 m² — contra uma média de 227,9 m² na região metropolitana.
Mesmo assim, quando se trata de risco de deslizamentos, o município tem um índice relativamente baixo (0,1% dos domicílios em áreas de risco alto), o que é um dado positivo. Já o risco de inundação atinge 25% dos domicílios — acima da média metropolitana de 20%.
Um ponto positivo chama atenção: 100% de abastecimento de água. Mesmo sem tratamento de esgoto, a água chega às torneiras da cidade — algo que não é garantido em muitos outros municípios.
O que esses números pedem?
O perfil de Belford Roxo é, antes de tudo, um pedido de atenção. Vários de seus indicadores estão entre os piores dos 22 municípios analisados — e quase todos eles revelam que a desigualdade tem cor e tem endereço.
O Plano Diretor do município está desatualizado. Obras públicas estão 60% paralisadas — o pior índice da RMRJ. O abandono escolar (7,3%) também está acima das médias estadual e nacional.
Conhecer esses dados é o primeiro passo. O segundo é cobrar respostas — dos prefeitos, dos vereadores, dos governos estadual e federal. Porque os números mostram o problema. Quem vive em Belford Roxo já sabe disso. O que falta é política pública à altura da demanda.

